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domingo, 12 de fevereiro de 2017

O que é um culto com animação de plateia [e algumas heresias]?


Era um culto de domingo, em uma grande e tradicional igreja evangélica. O templo estava lotado, e tudo transcorria normalmente, após a oração de abertura, que terminou com o primeiro “amém” da noite.

Havia muitas pessoas não crentes para ouvir a exposição da Palavra de Deus. No púlpito, os obreiros folheavam a Bíblia, esperando ter uma oportunidade para falar. E isso poderia acontecer, uma vez que o pastor pregara no domingo anterior e não costumava avisar com antecedência o pregador do próximo culto.

Após o momento de cânticos, com todos os conjuntos musicais, e a leitura da Bíblia Sagrada, o pastor anunciou:
— Vamos fazer uma oração e, em seguida, ouviremos uma saudação pelo pastor José dos Clichês, que hoje deixou a sua congregação, e gostaríamos de ouvi-lo transmitir uma rápida palavra.

O dirigente do culto começou a orar, e José, assentado na galeria por ter chegado tarde à reunião, lembrou-se de uma pregação que ouvira sobre o texto de 1 Pedro 3.15, cujo tema foi: “Estai sempre preparados”.

Terminada a oração com mais um “amém”, José se levantou calmamente e dirigiu-se ao púlpito, sem saber o que falaria, pois, mesmo sendo um ministro, não tinha nenhuma mensagem preparada... A fim de ganhar tempo, fez questão de cumprimentar os vinte obreiros que ali estavam, um por um. Ajustou, então, lentamente, o pedestal do microfone e começou a falar:
— Saldo os irmãos com a paz do Senhor e os amigos com uma boa noite de salvação! Amém?

Como poucos irmãos responderam, ele reclamou:
— Parece que esse “amém” foi para mim. Saldo os irmãos com a paz do Senhor! Amééém?
— Amééééééééém! — o público respondeu.
— É motivo de grande alegria estar aqui neste lugar, pois anjos, arcanjos, querubins e serafins estão aqui, nesta noite. Amém, irmãos?

Ao som de um desconfiado “amém”, José continuou:
— O povo de Deus é um povo alegre! Olhe para o seu irmão e diga: “Eu profetizo unção de alegria sobre a sua vida!” — isso fez com que todos se movimentassem, se cumprimentassem e conversassem em voz alta durante alguns minutos.

Depois desse momento de — digamos — “descontração”, José continuou:
— Desejo, antes de proferir a poderosa e magnânima mensagem que já está em meu coração, cantar um hino para Jesus. Minha voz não está boa, mas vou cantar para Jesus!

Pedindo aos músicos uma nota, começou a cantar de forma desafinada a canção Jesus Tomou as Chaves do Diabo. Alguns irmãos sorriam, outros olhavam para o relógio, e a maioria cochichava:
— Que desafinado — todos, na verdade, sabiam que ele, por não conhecer música, pedira um tom muito alto. Pior que isso: estava cantando fora do tom pedido. Mesmo assim, não se intimidou e cantou o “hino” duas vezes!

Os obreiros do púlpito permaneciam de cabeça baixa, olhando para a Bíblia, enquanto o pastor da igreja — que parecia antever o que aconteceria — pronunciava em tom baixo um pejorativo “amém”. Quando ele pensava que nada pior poderia acontecer...
— Irmãos — disse José dos Clichês. — Esse hino é maravilhoso e me faz lembrar do tempo em que eu era um pecador, e a poderosa mão de Deus me alcançou... E quantas pessoas estão sofrendo, no pecado... Glória a Deus! Aleluia! Como disse o apóstolo Pedro, em Hebreus: “Horrenda coisa é cair na mão do Deus vivo”.

Não percebendo que havia aplicado o versículo de modo contraditório e citado a fonte erroneamente, ainda acrescentou:
— E essa mão vai tocá-lo nesta noite! Se você crê, levante a mão direita e comece a liberar a sua fé! Você é vencedor! Declare isso!

Apesar de gritar e pular, a ponto de suar e quase perder a voz, percebeu que não houve o “retorno” que esperava. O povo não estava tão impressionado com as suas palavras e atitudes. Assim, resolveu fazer uma oração:
— Fiquemos em pé! Vamos fazer uma oração de conquista! Vamos tomar tudo o que o Diabo nos roubou! Comece a liberar a sua fé! Determine agora a sua vitória! Exija que o Diabo deixe a sua vida!

Quando a estranha oração já durava vários minutos, e alguns irmãos já estavam sentados, ele concluiu:
— Em o nome de Jesus, eu determino que haja vitória para o seu povo e profetizo que todos recebam a bênção agoooooooooora! Diabo, eu exijo: Pegue tudo o que é seu e saia, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

A essa altura, todos pensavam que ele terminaria a sua “rápida” saudação. Mas, folheando a Bíblia de um lado para o outro, prosseguiu:
— Bem, irmãos, para não ficar somente em minhas palavras, quero deixar um versículo para a meditação de todos. Desejo ler uma passagem conhecida, pois o salmista disse que a Palavra de Deus se renova a cada manhã...

Após alguns segundos de procura, voltou-se para os obreiros do púlpito e perguntou:
— Irmãos, quero deixar para a igreja aquele versículo que diz: “Quem não vem pelo amor, vem pela dor”. Onde está mesmo? Acredito que esteja em Eclesiástico...
— Irmão José, é Eclesiastes — manifestou-se um dos obreiros, em tom baixo.

Nesse instante, enquanto alguns irmãos riam de cabeça baixa, José continuava a procurar o versículo... Ele já havia consultado a concordância resumida que havia em sua Bíblia, mas... Faltavam apenas vinte minutos para o término do culto, e o horário da pregação já estava atrasado em quase meia hora. Para complicar mais a situação, o pastor havia convidado Antonio das Revelações, um famoso pregador da Igreja do Evangelho Antropocêntrico, que chegara poucos minutos depois do início da “saudação”.

Antes que o pastor, um homem muito paciente, puxasse o paletó do irmão José, ele tomou uma atitude: fechou a Bíblia de forma brusca e, um tanto trêmulo, abriu-a de novo, lentamente, mantendo os olhos fechados e um dedo sobre uma passagem.
— Irmãos, eu resolvi tirar uma palavra, e caiu aqui em Salmos 32.9. E o Senhor vai falar com você agora, pois o nome de Deus é Já! Quem achou, diga “amém”. Quem não achou, diga “misericórdia”.

Ao ouvir um fraco “amém”, ele firmemente procedeu a leitura:
— “Não sejais como o cavalo, nem como a mula, que não têm entendimento, cuja boca precisa de cabresto e freio, para que se não atirem a ti”.

Lido o texto, o dirigente do culto, que mantinha um olho na Bíblia e outro no relógio da parede, não suportando a sucessão de atitudes inconvenientes, disse em alto e bom tom:
— Amém, pastor José. Agora é a hora da Palavra! Vamos ouvir a pregação!

José olhou para o pastor e, entendendo que dissera aquelas palavras em sinal de aprovação, para que ele continuasse falando e iniciasse, de fato, a pregação, respondeu, com ar de soberba:
— Esse versículo é muito profundo, e eu poderia ficar aqui falando muito tempo. Só não vou fazer isso porque o pastor me deu a oportunidade para apenas uma saudação. E eu quero ser fiel ao meu pastor. No entanto, gostaria de fazer só mais uma coisa. Olhem para mim!

Nesse instante, houve um momento de expectativa...
— Lemos um versículo que mostra o poder das palavras. Olhe para o seu irmão e diga: “Aprenda a usar o poder de suas palavras, pois com elas você pode produzir bênção e maldição”.

Boa parte do povo estava um tanto impaciente, haja vista a expectativa de ouvir o pregador convidado, e acabou não seguindo as ordens de José.
— Parece que os irmãos estão um tanto desanimados. Repreenda esse espírito de desânimo, irmão! Amém?

Sem ouvir sequer um irmão dizendo “amém”, José preferiu não insistir e, finalmente, concluiu:
— Eu agradeço a oportunidade, e que o Espírito Santo fale melhor em cada coração.

Como faltavam poucos minutos para terminar o culto, e o grupo de coreografia ainda pediria para se apresentar antes da mensagem — mais quinze minutos! —, a saudação, propriamente dita, ficaria a cargo do pregador convidado...

No entanto, este ainda falaria por mais cinquenta minutos, pedindo que o povo respondesse a mais alguns “améns”. Antes de pregar sobre os seus assuntos preferidos, a prosperidade, os direitos do crente e os demônios, pediu a todos que olhassem para o irmão ao lado e dissessem:
— Eu te abençoo agora! E profetizo prosperidade sobre a tua vida!

O público acabou se animando um pouco com essa sessão de “profecias”, mas cansou-se logo, pois, a cada frase de efeito que o pregador empregava, dizia:
— Diga isso para o seu irmão...

De fato, ele parecia ser um homem de fé, pois relatou inúmeros encontros que teve com Jesus e os apóstolos, no céu, e com o Diabo, no inferno. Ele aproveitou para oferecer o livro As Revelações do Céu e do Inferno que Paulo Não Teve Coragem de Escrever, lançado pela editora Fé na Fé.
— Irmãos, eu recebi este livro quando visitei o céu pela primeira vez e conversei com o apóstolo Paulo. Ele me disse que não teve coragem de escrever em suas epístolas tudo o que viu, mas que me autorizava a divulgar essa mensagem para a Igreja dos últimos dias. Neste livro, estão revelados muitos mistérios que não se encontram na Bíblia.

Após a longa e polêmica pregação, o pastor — cheio de dúvidas quanto a tudo o que ouviu — impetrou a bênção apostólica e encerrou a reunião com o último “amém”!

Há um versículo que parece definir bem o que foram as pregações do José dos Clichês e Antônio das Revelações: “O princípio das palavras de sua boca é a estultícia, e o fim da sua boca um desvario péssimo” (Ec 10.13).

Ciro Sanches Zibordi
Este texto ficcional foi publicado sob o título O último amém no livro (bestseller): Erros que os Pregadores Devem Evitar (CPAD, 2005)

7 comentários:

Celita Louback Welsch disse...

Amado pastor Ciro,
O senhor, amado irmão, pastor, é coerente e um professor ideal para esse chiqueiro que se transformou as igrejas num circo de espetáculo.Deus não vai assinar seu nome nas profetadas dos que gostam de aparecer e chamo isso de advinhação. Tenho simplesmente aversão pela igreja que parece não herética mas usa desses chavões para atrair os clientes ( não os crentes).

Anônimo disse...

A paz do Senhor eu comprei o livro é realmente conta está história, depois que li este livro em mim muita coisa mudou.
Deixei de muitas manias,e melhorei nas minhas mensagens.

Luciano Silva disse...

A Paz do Senhor! Pr. Ciro, ao falar de falsas profecias:Qual é a melhor tradução do texto original de 1 Samuel 18.10? A ARC traduz que "o espírito mal da parte de Deus se apossou de Saul e ele profetizava em casa". Já a ARA traduz que "o espírito mal da parte de Deus se apossou de Saul e ele teve uma crise de raiva em casa".
Se a ARC estiver correta, então, uma pessoa com espírito mal profetiza não é mesmo? Se estiver errado mim corrija...

Um forte abraço!

Ciro Sanches Zibordi disse...

Irmão Luciano, a paz do Senhor! Em Jeremias 28, tanto este homem de Deus como o enganador Hananias são chamados de PROFETA. Biblicamente, uma profecia pode ter origem divina, humana ou demoniaca.

Penso que a ARC tem o amparo do contexto referencial. No caso dos falsos profetas dos dias do profeta de Deus Micaías, um espírito mal da parte de Deus — isto é, um espírito maligno que agiu sob permissão de Deus — foi um espírito de mentira na boca de todos os profetas (cf. 1 Rs 22).

Em Cristo,

CSZ

Diego Loiola disse...

Paz... Parabéns nobre Pastor por sua coragem. Já vivemos casados de tanta besteira que ouvimos em nossos publitos, porém ainda bem que existe homens que vivem e pregar o verdadeiro Evangelho. Eu sou Missionário Diego Loiola, e estamos trabalhando para o Senhor Jesus na Venezuela sou um amante da mensagem expositiva.

Erico Chaves Santos disse...

A paz do Senhor caro Pastor, muito bem escrito seu texto, porém, quero corrigir que "saudar" condiz com saudação, cumprimento e "saldar" é aplicado em liquidação de divida e afins. No mais, continue sendo fonte de benção para nós.

Ciro Sanches Zibordi disse...

Exato! O erro foi do "pregador", não meu. Risos.